31.12.10

Ano Novo

Contar o Tempo é inútil. Bichos sabem a hora de dormir, acordar, comer, migrar, reproduzir e depois deixar seus filhotes por si sós. Bichos não sofrem de insônia. Nem de ansiedade quando estão soltos, na natureza.
Já o Homem cada vez se afasta mais de tudo que é natural. Consome e distribui ansiedade à sua volta. Nada nem ninguém escapa. Nem rosa, nem roseira.
 rosa multicolorida de Holambra 
Imagem: tathypikachu.zip.net

Calendários foram inventados para orientar os homens que falam sobre a Natureza como algo remoto, ainda que a seus pés. Uma entidade que deva ser conservada ou que está aí para ser explorada mesmo e danem-se. Esses homens, tadinhos, se julgam sobrenaturais.

Gregório, para mostrar o quanto mandava, acordou um dia com a idéia de mandar criar um novo calendário. E mandou relativamente bem. Lentamente a maioria dos países foram adotando o calendário do Gregório. Os astros não. Nem a própria Terra, onde Gregório pensava que mandava. 'Que Gregório é esse? Imperador do quê? Calendário o quê?', Gaya não entendeu nada e engoliu Gregório. O ano continua tendo 13 luas e começa no meio do que Gregório chamou de Abril. Qualquer coisa fora disso é pura ilusão.

O que se comemora, então, dia 31 de Dezembro, em todos os quadrantes? Não sei. Amanhã talvez saberei, saberemos, saberão!
Imagem: br.olhares.com

Amnhã verei se o Nascente está no mesmo lugar.
(risada de bruxa para terminar)

27.12.10

O Natal das bruxas

Entre todas as datas festivas o Natal é a mais extravagante aos olhos da bruxarada. O Cristo, que não nasceu nessa data, nem no ano 1, nem no ano zero, divulgou mensagem de igualdade e acolhimento no amor ao próximo, na caridade, na liberdade... Tudo o que deveria ser natural e espontâneo em todos os seres humanos. Incompreendido, foi pregado na cruz.  Seu exemplo, dorido, ficou a serviço de interesses diversos. Sentado à mão direita do Criador, espia o mundo e constata que morreu em vão.

Teria o Cristo desejado que as familias e as rodas de amigos se fechassem em torno de uma mesa farta ou, ao invés, que saíssem de si e dividissem o pão, agasalhassem os necessitados, abraçassem os desgarrados, os órfãos, os solitários, os saudosos, os magoados, os carentes de todo tipo, todos nós, uns aos outros? E que levassem esse gesto vida afora, sempre, sem trégua até que toda miséria, divisão e solidão fossem extintas? Que não houvesse resquício de insegurança entre os Homens, confiantes que seriam na sua própria espécie e na existência de Deus? Às bruxas, na sua infinita incerteza, parece que sim.

O Cristo, o mesmo que deixou a paciência (e o pacifismo) de lado atacando os vendilhões do templo, abençoaria Ele o comércio a propósito do Seu próprio nascimento? Abençoará aqueles que tantalizam  as crianças e os adultos que ainda não cresceram (e talvez jamais o façam), os necessitados, os endividados, os famintos e os desabrigados com o derrame de produtos além, muito além, de seu alcance? Ele, que repartiu o pão, abençoará a matança de animais para enfeitarem e enriquecerem as ceias? Abençoará Ele a idéia de que quanto mais presentes, e mais caros forem, tanto mais amado é aquele que os recebe e mais amante aquele que os oferece?

O Natal é um desafio para a compreensão de uma bruxa, espécie que se coloca, em geral, na contramão. Entre a manada se sentem estranhas e são estranhadas. Retiram-se. A ressaca das bruxas começa aos primeiros sinais do Natal. Os bêbados se recomporão. As bruxas, não.

21.12.10

Papai Noel às avessas




Papai Noel às avessas
2008 - RECEITA DE ANO NOVO
 

Papai Noel entrou pela porta dos fundos 
(no Brasil as chaminés não são praticáveis), 
entrou cauteloso que nem marido depois da farra. 
Tateando na escuridão torceu o comutador 
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas, 
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. 
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos, 
achou um queijo e comeu. 

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. 
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças 
(no Brasil os Papais-Noéis são todos de cara raspada) 
e avançou pelo corredor branco de luar. 
Aquele quarto é o das crianças. 
Papai entrou compenetrado. 

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos 
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos 
soldados mulheres elefantes navios 
e um presidente de república de celulóide. 

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo 
no interminável lenço vermelho de alcobaça. 
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto 
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidentes 
brigavam por causa do aperto. 
Os pequenos continuavam dormindo. 
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo. 
Papai Noel voltou de manso para a cozinha, 
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos. 

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Carlos Drummond de Andrade

7.12.10

Ultra mega diet

Receitas de guloseimas para os seguidores de dietas alimentares em geral foram criadas e compiladas em livro por Christen Haden e Mariarosa Sala, publicado na Austrália, pela Penguin Books.


 Pelo inusitado da idéia reproduzo aqui algumas fotos:

Vegetais e frutos do mar

e ainda os tentadores docinhos.


Sei não, mas acho que os docinhos de crochet demoram mais a ficar prontos do que os verdadeiros. 
Quanto à digestão estou certa de que será mais lenta.

2.12.10

2011

Que sejam bem aproveitados os (poucos) feriados 
e todos os demais dias de 2011!



A tabela inclui apenas os feriados nacionais. 

24.9.10

Saber Viver



Saber Viver 
CoraCoralina


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
 

Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
 

Verdadeira, pura...
Enquanto durar.






12.9.10

Tempo

Papageno, na concepção de Karina


O Tempo, a forma como lidamos com ele, é um assunto que vem me ocupando há algum tempo.

Não à toa voltei à entrevista do tuareg, obtida e divulgada pela primeira vez ...sim, tempos atrás.

A Bruxa me soca as entranhas ante tantos gadgets e tecnologia à serviço da economia de tempo. Objetos que demandam - para uns mais, para outros menos -  trabalho e energia para fazer dinheiro para adquiri-los e logo substitui-los, em busca de produtos atualizados. Quanto tempo e energia se gasta para economizar tempo e esforço?

É uma incoerência a mais vivida por alguns que vão seguindo sem lembrar, sem questionar, sem responsabilidade com o futuro que desejam tão desesperadamente alcançar.

Nós somos, sabidamente, um país jovem e sem memória. A História do Brasil não atrai enquanto disciplina escolar. Dela se ocupam alguns pesquisadores e interessados em conhecer a verdade, pois aquela, decorada no colégio é  lenda. O que importa? Para a maioria o passado não faz diferença pois o objetivo é alcançar o futuro. Como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra.

Recebi e deixo aqui um vídeo a quem interessar possa. 
Mostra o passado e o futuro ao mesmo tempo. 
Achei pertinente.

5.9.10

Nas cidades o Relógio; longe delas o Tempo

Entrevista com um TUAREG!
...Aqui tens o relógio, ali temos o tempo.

Não sei a minha idade: nasci no Deserto do Saara, sem certidões...! Em um acampamento nómada Tuareg entre Tumbuctu e Gao, ao norte do Mali. Tenho sido pastor de camelos, cabras, ovelhas e vacas de meu pai. Hoje estudo Gestão na Universidad Montpellier. Sou solteiro. Defendo os pastores Tuareg. Sou muçulmano sem fanatismo.

- ¡Que turbante tão bonito…!
- É uma fina tela de algodão: permite proteger o rosto no deserto quando se levanta areia, e seguir vendo e respirando através dele. É de um azul belíssimo…. Aos Tuareg nos chamam os homens azuis por isto: a tela solta algo e nossa pele se toma de tons azulados...

Como elaboram este intenso azul anil?
- Com uma planta chamada índigo, misturada com outros pigmentos naturais. O azul, para os Tuareg, é a cor do mundo.

Por quê?
- É a cor dominante: do céu, do teto de nossas casas.

- Quem são os tuareg?
- Tuareg significa “abandonados”, porque somos um velho povo nômade do deserto, solitário, orgulhoso: “Senhores do Deserto”, nos chamam. Nossa etnia é a amazigh (berbere), e nosso alfabeto, o tifinagh.

- Quantos são?
- Uns três milhões, e a maioria, todavia, é nômade. Porém a população decresce... “ É preciso que um povo desapareça para que saibamos que existia, denunciava um vez um sábio: eu luto para preservar este povo.

- A que se dedicam?
- Pastoreamos rebanhos de camelos, cabras, ovelhas, vacas e jumentos num reino de infinito y de silencio…

- De verdade tão silencioso é o deserto?
- Sim estás a só naquele silencio, ouves as batidas de teu próprio coração. No há melhor lugar para se achar sozinho.

- Que recordações de tua infância no deserto conservas com maior nitidez?
- Meu despertar com o sol. Ali estavam as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos aonde há água e pastagem… Assim fez meu bisavô, e meu avô, e meu pai… E eu. Não havia outra coisa a mais no mundo do que isso. E eu era muito feliz nele!

- Sim! Não parece muito estimulante. ..
- Muito.. Aos sete anos já te deixam apartado do acampamento, para o que te ensinam as coisas importantes: a farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e as estrelas… E a deixar-se levar pelo camelo, se te perdes: te levará aonde há água. Saber isso é valioso, sem dúvida… Ali todo é simples e profundo. Há poucas coisas, e cada uma tem um enorme valor!

- Então este mundo e aquele são muito diferentes, não?
- Ali, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estar juntos! Ali nada sonha em chegar a ser, porque cada um já o é!

- O que mais chocou em tua primeira viagem a Europa?
- Vi correr as pessoas pelo aeroporto.. . No deserto só se corre si vem uma tormenta de areia! Assustei-me, claro…

- Só iam buscar as malas, já, já…
- Sim, era isso. Também vi cartazes de mulheres desnudas: por que essa falta de respeito com as mulheres? Perguntei-me… Depois, no hotel Ibis, vi a primeira torneira de minha vida: vi correr a água…. e senti vontade de chorar..

- Que abundancia, que desperdício, não?
- Todos os dias de minha vida haviam consistido em procurar água! Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá continuo sentindo dentro uma dor tão imensa….

- Tanto assim?
- Sim. A principio dos anos 90 houve uma grande seca, morreram os animais, caímos enfermos…. Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu… Ela era tudo para mim! Me contava histórias e me ensinou a contar-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.

- Que aconteceu com sua família?
- Convenci a meu pai de que me deixasse ir à escola. Quase todos os dias eu caminhava quinze quilômetros. Até que o professor me deixou uma cama para dormir, e uma senhora me dava de comer ao passar ante a sua casa…. Entendi: minha mãe estava ajudando-me...
- De onde saiu essa paixão pela escola?
- Dois anos antes havia passado pelo acampamento o rali Paris-Dakar e uma jornalista deixou cair um livro de sua mochila. O recolhi e a dei. Presenteou-me e me falou daquele livro: O Pequeno Príncipe. E eu me prometi que um dia seria capaz de lê-lo….

- E o logrou.
- Sim. E assim foi como logrei uma bolsa para estudar na França.

- Um Tuareg na universidade ..!
- Ah, o que mais me falta aqui é o leite de camela… E o fogo a lenha. E caminhar descalço sobre a areia quente. E as estrelas: lá as miramos cada noite, e cada estrela é distinta de outra, como é distinta cada cabra… Aqui, pela noite, olhas a televisão.

- Sim… Que é o pior que lhe parece aqui?
- Tendes de tudo, porém não basta. Queixai-vos. Na França passam a vida se queixando! Aprisionai-vos por toda a vida aos bancos, e há ânsia de possuir, frenesi, pressa… No deserto não há atrasos, e sabe por quê? Porque ali nada quer se adiantar a nada.

- Conta-me um momento de felicidade intensa em distante deserto.
- É cada dia, duas horas antes do pôr do sol: diminui o calor, e o frio não chegou ainda, e homens e animais regressam lentamente ao acampamento e seus perfis se recortam no céu rosa, azul, roxo, amarelo, verde…

- Fascinante, na verdade…
- É um momento mágico…. Entramos todos na tenda e pomos o chá no fogo. Sentados, em silencio, escutamos a fervura… A calma nos invade a todos: as batidas do coração entram no compasso, no pot-pot dp fervor...

- Que paz…
- Aqui tens o relógio, ali temos o tempo.

Texto extraído do blog Amor à Vida, português, o que explica algumas diferenças do Português falado no Brasil. Não encontrei citação da fonte inicial. 

1.9.10

Complicado isso!







"__ Tenho medo que o branco da bandeira não seja suficiente para nos resguardar. ", disse ela, e voltou a se enfiar na Floresta Encantada em busca de um rastro, por menor que seja, do manto azul de Nossa Senhora.

30.8.10

Mãe é tudo igual!



A maternidade é compromisso inteminável, programa para a vida inteira. Tarefa para todos os dias, ainda que de corriqueira nada tenha.

Missão muito especial essa, e não só para a nossa espécie humana. 

Achei que precisava escrever alguma coisa, mas, na verdade, o vídeo dispensa comentários. 


Acho que sou uma foca...

16.8.10

De que são feitas as Bruxas?



Sei uma resposta, entre tantas.

Bruxas se compõem dos bichos que as cercam.

O gato não alardeia suas 7 vidas.
Pula de uma para outra 
como para cima de um móvel, 
pelo espaldar da poltrona,
através da janela
e segue.



Volta e nem sabe 
de onde terá vindo. 
Só a casa importa.

Lá, por conforto, mora o corvo.  
Musicalmente repetem:
"nunca mais". 


A coruja, recolhida, se cala. 



3.8.10

Encontro feliz

A Bruxa está rindo à toa.

O cãozinho encontrou seu parceiro.

Juntos, para sempre, desde segunda feira!

Mais felizes os dois. Os três. Os cinco. Os seis.... todos os envolvidos nessa história que apenas começou.

30.7.10

Cãozinho para adoção

A Bruxa morre um pouco cada vez que não pode acolher um bicho. Desta vez um cãozinho - preto e sem raça definida. Daqueles que nascem para ser o companheiro especial de alguém (que ainda não encontrou).

 Ele está esperando por você, talvez por alguém que você conheça e o queira e possa acolher.


12.7.10

Elso Arruda Filho


Água Fria, 2010 (110 x150) 
A melhor forma de agradecer ao Criador pelos dons recebidos é exercê-los.


Isso faz Elso Arruda, usando a cor como Ele faria se usasse os mesmos suportes.


Vinho Francês, 2009 (120 x 150)
O artista comemora este ano 30 anos de dedicação exclusiva à pintura, depois de engavetar o diploma de arquiteto. Para tanto é preciso mais que coragem e determinação. É preciso uma vocação irresistível, o ingrediente mágico que faz um talento se impor e permite ao talentoso aprimorar-se a cada dia. 




Lito, 2009-amarelo



Lito, 2009-cinza

Lito, 2009-vermelho
Graças à aceitação de sua vocação, o Elso nos oferece esse trabalho magistral no equilíbrio ousado da cor e das formas no qual utiliza materiais terrenos para expressar o sopro divino, comumente chamado de inspiração, ao qual o Homem precisa somar muita, muita transpiração.


Se você gostou dessa pequena amostra, se acha que gostaria de ter um trabalho do artista em sua casa ou local de trabalho, escreva para cá! 
Deixe o seu comentário! 
Eu o/a colocarei em contato direto com o artista. 

9.7.10

Agora, depois da Copa


Para quem, como eu, acompanha futebol a cada quatro anos, a Copa do Mundo acabou faz tempo e não deixou saudades. Ao menos não alimentou o ufanismo - que é o orgulho equivocado -  parou de atordoar a rotina, os valores cívicos e calou as vuvuzelas. Não é pouca coisa.

Houve outras conquistas, a meu julgamento: a atitude de Dunga de não conceder, nem sob pressão e certeza de execração orquestrada, entrevistas exclusivas para a rede de comunicações mais poderosa do país. Uma discussão que deveria ser expandida.

Também gostei que ele evitasse convocar jogadores - bons, experientes, aclamados - que tivessem uma atitude pouco séria em suas vidas nem tão particulares assim.

Não se pode imaginar que no futebol haja uma amostragem de personalidades diferente do resto da humanidade. Os conflitos, a rigor, devem ser até mais sérios por todos os motivos conhecidos somados à desconcertante idolatria da qual são alvos. Fica faltando o pé no chão.

Não entendo a motivação que leva à idolatria. Menos ainda aquela dedicada aos praticantes de uma atividade humana baseada no treino de uma habilidade física e - pior - testada nos confrontos.

Dou preferência às práticas de cooperação e colaboração. De doação e união. De amizade, de irmandade. De congraçamento verdadeiro, aquele que dispensa a disputa prévia. Que une os iguais e não ganhadores e perdedores.

Tá bom, eu tenho a Bruxa dentro de mim e meus juízos não são lá essas coisas...

28.5.10

Só para lembrar


"Não resolvemos os problemas com base no mesmo raciocínio que os criou."Albert Einstein

28.4.10


Nesta época, início de primavera no Hemisfério Norte, também no Jardim Botânico do Brooklyn , em Nova York, florescem as cerejeiras oferecidas pelo Japão como sinal de amizade aos EUA.

Na tradição oriental o Hanami 
é a celebração dessa florada,baseada no exercício de fruição de cada momento da estação. Não sem razão. Por sua efemeridade, mais especialmente pela curta duração da Beleza e tudo que a ela se relaciona, por afinidade ou oposição.

Nós do Ocidente precisamos sempre lembrar e 
introjetar a lição que vem do Oriente, onde até as pedras da ruas sabem, melhor do que nós, conviver com a efemeridade de tudo e todos.

Setembro vem aí, trazendo a nossa Primavera e a
florada de cerejeiras que nos cabe mas o Hanami... bom lembrar dele em todos os momentos de todas as estações da nossa vida.

O
vídeo do site do 
BBG é fantástico.

Vale a pena assisti-lo, em qualquer latitude, em qualquer época do ano.
 






23.4.10

É pena


Teci areia e formei uma pedra.
Fora da pedra a areia voou.
A pedra, coitada, ficou.

Teci penas e montei asas.
Vesti-as, pesadas.
Ficamos no mesmo lugar.

De volta aos fios, teci.
O xale me confortou.
Deitei a pedra ao rio.
Guardo, sofrida, a asa que não voou.

15.4.10

Tonto



A bruxa se recolhe com o frio.
Acende a fogueira.
Conversa com o fogo baixo e tece.

Cada figura um desejo, uma história que começa e caminha sozinha.

Esta é a história de Tonto.
O calor do fogo lhe desfaz a capa de gato.
Tonto se mostra, à luz da chama, lilás.

  

26.3.10

Araucárias



Paisagem que veste 
a janela da Bruxa
 para a Floresta Encantada. 



9.3.10

..."que o fim último da vida"...


jornalista português,
autor do texto a seguir. 

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.

Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!" 

7.3.10

Imperdível



Jamie Oliver, jovem chef inglês, fala a uma platéia norte americana sobre alimentação, a necessidade de sabermos identificar alimentos, cozinhar e comer de forma saudável.

Vale a pena clicar no link.

21.2.10

A Bruxa, Macunaíma e eu

Quero pedir desculpas por ter postado aqui, por engano, coisas do outro blog. Nada a ver. Sabidamente  bruxas tem maneiras muito sutis de chamar à atenção. Kitéss não fica de fora.

Faz tempo que não tecemos - nem histórias, nem comentários nem fios. Estão todos emaranhados onde a Bruxa é soberana. E tanto manda que me fez escorregar. Pura ciumeira que me obriga a uma retratação.

Através do outro blog eu venho acompanhando o movimento das datas comorativas, que são muitas, nos países onde o patchwork nunca deixou de ser moda e movimenta, e muito, indústria, comércio e serviços.

Valentines Day coincidiu com o nosso Carnaval. Era um tal de vermelho e rosa de dar enjôo. TUDO em forma de coração ou com coração pregado, bordado, recortado, glaçado - tudo é tudo.



Agora o tudo virou verde - e que verde! - por conta do Dia de São Patrício, 17 de Março.Trevos para todo lado. O número de folhas não importa, contanto que sejam trevos. A sorte não sabe contar.



Como essas datas não são marcantes na nossa cultura, a Bruxa fica doidinha para me trazer de volta. E traz.

Eu acompanho o que o povo lá de fora faz, e muito bem, aprendo as técnicas e uso-as em motivos e cores brasileiras até porque a Bruxa não me permitiria fazer diferente. E ela dá risada quando se alia a Macunaíma e ambos me levam a fazer menos, por menos, muito menos.

Pressionada pelos dois, abandonei o plano de costurar aplicações já recortadas e preguei-as num espelho feinho, antes dado como inútil aqui na Floresta Encantada. Coisa de poucos minutos. Trabalhão mesmo foi fazer foto de espelho..." Ai, que preguiça!..." dizia a vozinha interior...

Ao fim ficamos felizes os três - eu mais a Bruxa e o Macunaíma que moram em mim. 

Ôpa! A população vem crescendo! 

9.2.10

Todo mundo erra mas ...



... tem gente que abusa.

Digo isso sem arrogância. Sei que cometo erros, tanto falando quanto escrevendo. Uma escorregadela aqui, outra ali, são compreensíveis no Português, um idioma complexo, que a rigor não aconselha mas na prática admite e encoraja frases longas, nas quais muitas vezes perdemos a concordância gramatical e não raro a coerência do raciocínio. 

Idiomas latinos tendem ao barroco e isso complica tudo: pensamento, expressão e compreensão. Em Português é mais fácil complicar do que simplificar. Acontece de errarmos e isso vale para todos nós. Com algumas pessoas acontece mais, com petulante insistência. Essas eu não gosto de escutar. Por isso, tanto quanto o possível, tenho evitado as falas presidenciais dos últimos anos. 

Quando o assassinato ao idioma é muito violento, a Bruxa dentro de mim se revolta. Contraio músculos e reviro os olhos, tentando controla-la. Nem sempre consigo. Quem me conhece sabe quando a Bruxa está me socando as entranhas. Alguns amigos adoram o quanto ela me desfigura a face e retorce o corpo ao simples som de um barbarismo. 


A Bruxa e eu vamos enfrentar um tiroteio linguístico de grosso calibre durante 6 semanas, 4 horas por dia, 5 dias na semana, nos dias a seguir. Começou hoje e não estavamos prevenidas. Eu me virei e revirei, cruzei e descruzei pernas sempre tentando amenizar minha expressão facial. Até uma hora em que não deu mais. A professora disse, ou melhor, leu um texto impresso e várias vezes repassado. Ela pronunciou "pernitente". 


Pernitente?


Minha boca caiu, os olhos se arregalaram e fiquei esperando, ansiosa, uma indicação de que eu havia escutado mal. 


Mais adiante, a boca ainda no chão, os olhos estatelados, sobrancelhas encontrando a raiz dos cabelos, escutei de novo. Ela, a professora, repetiu, lendo outro trecho do mesmo texto: "pernitente".


Desde então fiquei matutando: 


A que mundo ela pernete?
A que mundo perneto eu?

A Bruxa se fez incontrolável. Este post tem como objetivo tentar acalmá-la. Preciso que a Bruxa compreenda: a turma à qual perneto, pernete, por sua vez, a essa professora, exímia em seu ofício. É importante que eu domine todas as técnicas pernitentes ao trabalho que quero desenvolver e esse curso pernete ao programa de aprendizagem que tracei para mim. 





Tenho medo que a Bruxa me expulse da aula. Preciso fazê-la entender que o Português pernete ao povo e que a voz do povo é a voz de Deus...


 Pronto! Agora mesmo é que a Bruxa se soltou de vez!



2.2.10

Quem é o consumidor final?


Sabe o que é uma frase ecoando na cabeça, que nem uma música ruim ou um jingle que não nos dá trégua?  Fiquei a tarde toda pensando na frase, ou melhor, a partir dela. 

Caí na gargalhada logo que a li. Ao riso frouxo que soou descabido numa loja de 1,99, seguiu uma corrente de pensamentos que me agrilhoa desde as 9 horas da manhã. Que desconforto!  

Tudo por causa de uma frase impressa na caixinha de um utensílio básico de cozinha. Nem ao menos uma inovação. Um descascador de legumes! 


Esta é a cara da caixa...





e esta a frase que carrega na lateral.



Deduzi imediatamente que só um homem pode tê-la escrito. A isso dava-se, em tempos idos, o nome de conclusão açodada. E o termo se justifica porque a frase me levou a um tempo que eu julgara extinto. Pode uma mulher tê-la produzido, ou reproduzido, robóticamente. Não sei e desisto de tentar imaginar autor/autora porque não consigo situar a época em que transita a mente de quem a escreveu, ou o local. Talvez na Antiguidade, ou no Oriente... Não sei e desisto. Não tenho conhecimento para tanto. 

Ficou aqui o registro da pérola, riscada, por razões óbvias, o nome da marca que a endossa. 

Antes de você cogitar que eu possa talvez ser uma feminista radical, devo dizer que sou mesmo. Não tenha dúvidas sobre isso. Mas este não é o assunto deste post. Ou será que é? 
Acho que não. 


O assunto é: o fabricante precisa conhecer o consumidor final do seu produto. O (ou A)  cara aí não tem a menor idéia da abrangência de seu público. Fabrica descascadores de legumes para serem usados por mulheres.  Meigo isso. Carinhoso.